sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A Nova Frente Russa - Conto

Por Michel Santos



O Coronel Von Koch encostou-se no beiral da porta, com seu uniforme negro com frisos cor-de-rosa das Divisões Panzer amarrotado, e começou a coçar distraidamente o antebraço direito com os dedos indicador e médio da mão esquerda, enquanto contemplava o campo logo a sua frente e à floresta de pinheiros que se erguia após meio quilometro, já na subida da colina. O céu estava de um cinza sujo e lufadas de vento gelado corriam pelo campo, anunciando mais um rigoroso inverno na frente russa.
Estava com as mangas da camisa arregaçadas, e sentia o frio contra a pele clara de seus braços. Nessa hora ele desejava uma vaga qualquer nos trópicos, nem que fosse somente para cuidar da segurança de alguma embaixada junto ao império japonês na Ásia, ou quem sabe em alguma praia do norte da África ou no Brasil. Até o sul da Itália e a Espanha lhe pareciam mais promissores e muito aconchegantes do que aquela sucessão de estepes e florestas geladas no inverno, de lama no degelo e poeira fina de quartzo no verão.
“O braço está coçando, senhor?”, perguntou seu ajudante-de-ordens, um jovem francês chamado Jacques, nascido na França livre, mas criado nas possessões alemãs ao sul do canal da mancha.
Instintivamente ele olhou para o antebraço direito, que até então estava coçando desesperadamente, e só viu o metal frio que lhe substituíra toda a extensão desde a articulação do cotovelo até a mão. A prótese era revestida com um novo tipo de borracha negra e enrugada nas articulações, e porosa nos dedos e palmas, para melhorar sua sensibilidade ao segurar algum objeto, principalmente uma dama, uma arma ou um cálice. As outras partes eram de uma liga metálica leve, mas extremamente resistente, de um cinza escuro e brilhoso, cujo nome agora ele não recordava. Esticou-o e abriu os dedos metálicos, depois fechou-os e dobrou o braço em direção ao corpo. Era uma obra de engenharia magnífica, tão bem ligada a seu sistema nervoso que a resposta era imediata, mas vez por outra ainda sentia o velho braço coçar, a mesma sensação que seu pai dizia ter após ter perdido uma perda nas trincheiras da primeira guerra.
Baixou as mangas e vestiu suas luvas de couro negras.
“Traga meu casaco, e uma caneca de café. Café, não aquela água suja que serviram hoje de manhã.”, disse ao ajudante, enquanto pegava seu cinturão, com sua pistola e a velha faca da juventude hitlerista. Saiu da casa, onde havia montado o quartel-general de sua companhia, e que vinha sendo seu lar desde o ultimo inverno e desceu a colina até onde uma fila com cinco tanques estavam estacionados. Eram os novíssimos “Minotauro”, rápidos como cavalos de corrida, e com uma torre ágil como um gato. Ficou olhando para eles, com sua belíssima pintura camuflada para imitar o ambiente da frente russa, as incansáveis estepes, florestas e tundras.
Achava incrível como, com tanta tecnologia, aquela guerra ainda não houvesse terminado. Desde 1948, com a assinatura do armistício com os Estados Unidos e com a Inglaterra, não houve mais batalhas memoráveis, apenas escaramuças contra rebeldes nas áreas anexadas da Europa Ocidental, e o constante incomodo dos ataques dos partizans russos, em uma guerrilha que parecia não perder o fôlego, e não haviam dado tréguas. Talvez tivesse sido melhor seguir o conselho de Rommel e assinar um armistício com a União Soviética também, visto que o império alemão se estendia por seus territórios até a outrora fortaleza dos czares no rio Volga, Stalingrado, hoje chamada de Hitlersburg, um nome horrível, diga-se de passagem. Mas não, a SS e o alto escalão do partido nazista não iriam aceitar nada menos do que a rendição completa da URSS, o que deixava aquela fronteira sempre com cheiro de pólvora. Por hora os russos não tinham condições de arremeterem-se em uma grande ofensiva, visto suas escaramuças na fronteira com a China, e os alemães tinham outras preocupações mais imediatas, como a tal corrida espacial com satélites, vôos extra-orbitais e pousos na lua.
Cumprimentou os soldados e os oficiais que estava conversando em volta de uma fogueira, protegidos do vento entre dois tanques, mas ninguém bateu continência, um ato que era extremamente desencorajado, visto que atiradores inimigos poderiam estar de tocaia, sempre prontos a abater um oficial. Eles faziam café em um bule sobre algumas pedras, e o cheiro chegou quente e reconfortante as suas narinas.
“Quer um gole, senhor?”, perguntou um velho sargento chamado Priller.
“Priller, se este café for tão bom quanto o último, eu dispenso. Graças a Deus que você atira melhor do que cozinha.”, todos gargalharam. Ele servia com a maioria daqueles homens há muito tempo, e sentia-se à vontade com eles, de forma que esse tipo de brincadeira essa aceita, independente de qual lado partisse.
Jacques chegou com sua caneca de café e seu casaco. Ele tomou um gole, fez cara de repulsa e devolveu a caneca.
“Pena que não tenho uma língua de metal, só assim para agüentar essa comida e esse café.” Disse enquanto vestia a jaqueta e o cachecol. Jacques lhe entregou o quepe com a insígnia da 25ª Divisão Panzer, cuja aba de plástico fora partida por estilhaços do mesmo morteiro que arrancara metade de seu braço e matara seu antigo ajudante. Guardava-o como um amuleto da sorte, a única superstição que se permitia.
Um silvo cortou o céu cinzento, partindo da floresta e ficando mais alto a cada momento, até que um projétil de morteiro explodiu contra a varanda da frente da casa, arrancando o telhado, provocando uma chuva de pedaços de madeira e cacos de telhas de cerâmicas, abrindo uma pequena cratera no local do impacto. Jacques jogou-se ao chão, derramando o café quente sobre seu uniforme. Os demais apenas olharam, sem esboçar qualquer reação. Aquilo era um acontecimento ao qual estavam acostumados, pois todo dia, em horários variados, os russos testavam seus nervos daquela forma. Somente ficavam preocupados quando mais de um morteiro era disparado.
O cabo e o sargento responsáveis pela cozinha saíram correndo dos fundos da casa, carregando baldes para apagar as poucas chamas que começavam a se formar na madeira seca da casa.
“Jacques, traga o nosso ‘infiltrador’” disse Von Koch, sem esconder a repulsa na voz. Os demais soldados e oficiais o olhavam calados, também compartilhando de seu asco por aquele ‘instrumento’ que tanto orgulho trazia ao reich.
Desde a ascensão de Hitler e de seus partidários, as pesquisas sobre ocultismo eram vastamente encorajadas, e recebiam enormes somas todos os anos, com raros retornos consideráveis. O Projeto Infiltrador era um desses poucos retornos. Em algum momento no auge das pesquisas com as “raças inferiores” nos campos de concentração na Alemanha e Polônia, descobriram certos traços telepáticos em alguns prisioneiros judeus e ciganos, que podia mandar mensagens para pessoas com quem compartilhavam determinadas ligações, principalmente emocionais, e podiam afirmar, com margem de erro de alguns poucos metros, onde estas pessoas encontravam-se. Dez anos depois, uma maquina ligada ao cérebro e coluna vertebral das pessoas com esse “dom” aumentava suas capacidades naturais, dando-lhes o poder de localizar qualquer um, dentro de um ambiente conhecido, e enviar mensagens através de distancias consideráveis.
Von Koch sabia que, ao contrario do que se afirmava, não eram utilizados apenas Judeus e ciganos como cobaias, mas certas coisas era melhor ignorar, pois ele sabia muito bem onde iam parar os “linguarudos subversivos”, usando o linguajar da Gestapo.
Minutos depois Jacques voltou, ao seu lado o SS-Hauptsturmfuhrer[1], que era o oficial medico responsável por aquele “equipamento”, empurrava a cadeira de rodas onde estava o garoto conhecido apenas como B-32c, numero gravado em sua testa. Era um garoto magro, pois alimentava-se apenas com um mingau acinzentado com gosto metálico, suas cabeça era mais arredondada e maior do que o comum, com um cabelo ralo e fino. Pouco acima e a frente de suas orelhas eram parafusadas duas caixas metálicas, do tamanho de caixas de fósforo, com duas pequenas antenas e fios que ligavam-nas com outra maior, presa também por parafusos ao seu crânio na altura da nuca.
Nessa caixa, por suas vez, eram ligados os fios que partiam de sua coluna cervical, que eram presos em suas vértebras por pinos de aço. Devido a esses pinos atravessados na coluna vertebral todos os “infiltradores” eram paraplégicos. Todos os fios se ligavam a uma outra caixa, que era presa às costas da cadeira.
Essa caixa era um pequeno computador, que traduzia os impulsos elétricos do cérebro do “infiltrador” e os convertia em coordenadas e palavras. Também eram largamente utilizados em interrogatórios, com amplo sucesso.
A roda da cadeira bateu em uma pedra, e o garoto atrelado aos fios e equipamentos sacolejou de um lado para outro. Von Koch pode notar um esgar de dor em sua boca, mas este durou tanto quando uma chuva de verão.
“Cuidado com ele.” Disse ao Capitão da SS que o conduzia.
“Cuidado com isto, você quer dizer, Herr Coronel” respondeu o SS-Hauptsturmfuhrer, como a prepotência característica das SS.
Em sua grande maioria, os soldados de linha da AS, e principalmente das divisões Panzer, nutriam de uma eterna rivalidade e repulsa pela SS devido a seus atos, considerados como indignos de qualquer soldado. Eles eram covardes, traiçoeiros e puxa-sacos. Von Koch não era exceção, mas como todo soldado, devia cumprir ordens, e algumas delas incluíam aturar esse tipo de coisa.
“Como você quiser, Lieber, apenas faça seu trabalho, pois o tempo não está nada agradável aqui fora.”
Lieber mexeu em algumas alavancas, pressionou uns botões, girou um comutador de energia, por fim digitou alguns comandos no teclado do computador e esperou. O garoto começou a tremer como que atingido por uma forte corrente elétrica. Um fio grosso de saliva escorreu pelo canto de sua boca, e a tremedeira parou. Uma luz verde acendeu no alto da caixa metálica, e uma tira de papel foi impressa. O oficial da SS rasgou a tira e entregou-a para Von Koch.
Ele leu as coordenadas e entregou para Priller, que de seu tanque repassaria as informações via rádio codificado para os outros blindados.
“Coordenadas confirmas e canhões prontos, senhor.” Disse Priller.
“Tiro para efeito.” Disse. “Não queremos que pensem que isso é uma colônia para férias de verão.”
“Tiros irradiados?” Perguntou um dos tenentes novatos, cujo nome Von Koch ainda não tivera tempo de decorar.
Esse tipo de projétil era revestido com uma “capa” irradiada, que se fragmentava, e segundo dizia o alto escalão do desenvolvimento armamentista do Reich, os fragmentos atingiam os rebeldes, ficando presos na pele, roupas ou veículos, que depois, com o auxilio de uma medidor de radiação criado especialmente para tal fim, podiam ser rastreados por até cinco quilômetros. A emissão radioativa, embora fraca, começava a causa um mal-estar após algum tempo de contato, o que debilitava e colocava fora de combate os soldados atingidos. Era algo completamente contrario as diretrizes da convenção de Genebra, mas hoje não haviam muitos que pudesses reclamar contra o império alemão.
“Só se vocês quiserem sair para caçar.” Respondeu Von Koch, sabendo que aqueles homens estavam ansiosos por qualquer tipo de ação, mesmo que fosse para caçar rebeldes esfarrapados e feridos em uma gélida floresta de pinheiros gelados.
Vinte e cinco projeteis de 120 milímetros foram disparados, erguendo uma barreira de fogo, poeira e fumaça dentro da mata. O garoto mais uma vez tremeu em sua cadeira e quando parou um novo fio de saliva escorria juntando-se ao primeiro, a luz verde tornou a acender e uma nova tira de papel foi cuspida da maquina.
“Ele não capta mais nada. Todos estão mortos” disse Lieber entregando a tira de papel para Von Koch.
O comandante recebeu as informações e parou pensativo por alguns instantes, depois amassou o papel e jogou no chão.
“Jacques, traga minha arma. Priller, você e seus homens tratem de colocar esses tanques em marcha vamos ver o que sobrou de nossos desafetos.”
Qualquer dia, pensou Von Koch, eu deserto e me mando para um lugar quente, longe disso tudo, mas por enquanto estava bem desse jeito...

[1] Equivalente a capitão na SS.

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